Quando falamos em epigenética, não estamos nos referindo à alteração do código genético em si (a sequência do DNA), mas sim às “instruções extras” que controlam como os genes se comportam — se vão ser ativados, silenciados ou se vão produzir mais ou menos proteínas. Pense nisso como interruptores e dimmers que regulam a intensidade da luz (no caso, da expressão gênica). Esses interruptores são influenciados por fatores ambientais como dieta, infecções, estresse e poluição.
Na DA, há uma série de alterações epigenéticas que contribuem tanto para o início da doença quanto para sua manutenção. E mais importante: muitas dessas alterações são reversíveis, o que abre portas para novas formas de tratamento.
Como essas alterações epigenéticas aumentam a inflamação na DA
Mecanismos clássicos: metilação do DNA e RNAs não codificantes
A metilação do DNA é uma das formas mais conhecidas de controle epigenético. Genes com regiões muito metiladas geralmente ficam “silenciados”. Na DA, esse mecanismo pode afetar genes importantes para a integridade da pele ou para o controle da inflamação. Um exemplo é o gene FCER1G, que codifica um receptor de alta afinidade para IgE. Em pacientes com DA, esse gene sofre hipometilação, o que leva à sua superexpressão, facilitando respostas inflamatórias exageradas a estímulos ambientais.
Barreira cutânea: epigenética também aqui
A filagrina (FLG) e as beta-defensinas humanas são fundamentais para uma barreira cutânea íntegra. Em indivíduos com DA, há evidências de hipermetilação nos promotores desses genes, resultando em baixa produção das proteínas. O resultado? Uma pele mais permeável, suscetível à entrada de alérgenos, microrganismos e agentes irritantes — o gatilho perfeito para a inflamação crônica.
MicroRNAs: os “reguladores silenciosos” da inflamação
MicroRNAs (miRNAs) são pequenas moléculas de RNA que não codificam proteínas, mas controlam a expressão de diversos genes, inclusive os envolvidos com inflamação. O miR-155, por exemplo, está aumentado na DA e promove maior proliferação de células T e diferenciação Th17 — dois componentes diretamente relacionados à exacerbação inflamatória. Já o miR-335, normalmente presente na pele saudável, está reduzido nas lesões da DA, o que prejudica a barreira cutânea por meio da desregulação do gene SOX6.
IL-22 e assinatura epigenética inflamatória
A citocina IL-22, sabidamente elevada em pacientes com DA, também parece ser regulada epigeneticamente. Em modelos experimentais, alterações em miRNAs como o miR-181b-5p e o miR-130b-3p foram associadas ao aumento na produção de IL-22 por células T CD4+, contribuindo para inflamação persistente e proliferação epidérmica.
Microbioma e epigenética: uma via indireta, mas potente
A composição da microbiota da pele e do intestino está intimamente ligada à gravidade da DA. Mas além de interagir com o sistema imune, esses microrganismos também modulam eventos epigenéticos, como metilação e expressão de miRNAs. Isso significa que o desequilíbrio microbiano pode contribuir para manter um ambiente inflamatório por vias epigenéticas, perpetuando o quadro clínico.
Aplicações práticas para a clínica veterinária
Para o clínico veterinário, entender que a Dermatite Atópica não é apenas uma “condição genética” é crucial. A epigenética mostra que ambiente, dieta, microbioma, inflamação e até medicamentos podem modular o comportamento dos genes — e isso pode ser explorado tanto para diagnóstico quanto para tratamento.

Hoje, ainda não temos terapias epigenéticas aprovadas para uso veterinário em DA. No entanto, já existem estudos com inibidores de HDAC (como o belinostat), compostos naturais (como canabidiol, bisabolol – camomila -, ácido rosmarínico – alecrim -, luteolina), e modulação do microbioma como intervenções que influenciam marcadores epigenéticos e reduzem inflamação em modelos animais.

Fernando Bittencourt Luciano
Farmacêutico e doutor em Ciências dos Alimentos, com uma trajetória que une ciência, inovação e empreendedorismo. Atualmente, é professor no Programa de Pós Graduação em Ciência Animal PUCPR e sócio na Wesen Green. Sua pesquisa é voltada para o uso de compostos naturais com ação antimicrobiana e anti-inflamatória, buscando desenvolver soluções inovadoras e seguras para promover a saúde e o bem-estar de cães e gatos.



