A teoria da barreira epitelial sugere que a predisposição genética combinada com a exposição a diversos fatores que danificam as barreiras epiteliais (pele, trato gastrointestinal, vias aéreas) contribui para o surgimento de condições alérgicas e autoimunes. Cães, assim como gatos, compartilham ambientes de vida com humanos e, portanto, estão expostos a muitos dos mesmos agentes poluentes e químicos introduzidos pela modernização e urbanização. A compreensão dessa interconectividade, sob o conceito de “Saúde Única” (One Health), é fundamental para a prevenção e o manejo de doenças alérgicas.

Figura 1. Mecanismos imunológicos subjacentes à disrupção da barreira epitelial: perda de integridade induzida pelo expossoma, desenvolvimento de epitelite e liberação de alarminas. Fonte: Ardicli et al., 2024.
A seguir, um guia prático sobre como cada componente externo pode precipitar problemas alérgicos em cães e o que recomendar aos tutores:
1. Alimentação e Aditivos Alimentares em Ração Processada
Problema: O aumento no consumo de aditivos alimentares por humanos reflete-se nos animais de companhia. Testes e ajustes de dose para aditivos em produtos para animais são, em geral, menos rigorosos do que para consumo humano. Rações secas (kibbles) são ultraprocessadas (com tratamento térmico, moagem, extrusão) e contêm diversos aditivos.
Agentes Prejudiciais Comuns:
-Emulsificantes (Polissorbatos como P20, P80, CMC, Carragenina): Podem danificar diretamente a integridade epitelial intestinal, alterar a microbiota (disbiose) e promover inflamação crônica, levando a doenças como Doença Inflamatória Intestinal (DII). Carragenina é um agente gelificante comum em alimentos enlatados para cães e gatos.
-Xilitol (E967): Um adoçante e intensificador de sabor comum em produtos humanos, mas altamente tóxico para cães, podendo causar hipoglicemia grave e insuficiência hepática.
-Etoxiquina: Antioxidante usado por anos na alimentação animal. Um metabólito é potencialmente genotóxico, e a União Europeia proibiu seu uso como aditivo alimentar desde 2020.
-Dióxido de Titânio (E171): Agente clareador que pode penetrar a barreira intestinal e está ligado à carcinogênese colorretal em ratos; banido na França, mas ainda presente em muitos alimentos e petiscos para animais.
-Outros: Goma cássia (potencial carcinogênico), sorbato de potássio (irritante para pele, olhos, sistema respiratório), parabenos (disruptores endócrinos), glutamato monossódico (efeitos inflamatórios e de dano tecidual).
Consequências em cães: Aumento da incidência de enteropatias crônicas. Disbiose microbiana e inflamação crônica.
Recomendações Práticas para Tutores:
-Incentivar dietas menos processadas: Recomende que os tutores considerem dietas baseadas em carnes não processadas, especialmente durante a fase de filhote (2-18 meses), pois isso foi associado a menor incidência de enteropatia crônica na vida adulta.
-Ler Rótulos Atentamente: Oriente sobre a importância de verificar a lista de ingredientes das rações, petiscos e suplementos, buscando evitar aditivos como xilitol, etoxiquina, dióxido de titânio, parabenos e glutamato monossódico.
-Cuidado com “Comida de Gente”: Explique que, embora o consumo de sobras de refeições caseiras (à base de carne não processada) possa ter um efeito protetor contra enteropatias crônicas, certos alimentos humanos (como xilitol, cebola, alho, uvas) são tóxicos para cães e devem ser estritamente evitados.
2. Detergentes de Lavanderia, Máquina de Lavar Louça e Limpadores Domésticos
Problema: Cães e gatos estão intensamente expostos a esses produtos devido ao compartilhamento de ambientes e seus hábitos (andar descalços, lamber as patas/pelo). Gatos têm risco ainda maior devido à autolimpeza.
Agentes Prejudiciais Comuns:
-Surfactantes (SLS/SDS, SDBS): Presentes em altas concentrações em detergentes e podem ser tóxicos mesmo em diluições extremas (0.002%). Danificam a integridade da barreira epitelial, aumentam a permeabilidade e promovem inflamação
-Enzimas (proteases, lipases, amilases, celulase): Adicionadas para melhorar a limpeza.
-Enxaguantes de máquina de lavar louça (álcool etoxilado): Causam disrupção da barreira epitelial gastrointestinal mesmo em altas diluições, deixando resíduos ativos nos utensílios.
-Derivados de Isotiazolinona: Preservativos biocidas que podem ser irritantes e alergênicos.
Consequências em cães: Irritação da pele (eritema, inflamação, dermatite), problemas respiratórios e exacerbação da dermatite atópica canina (DAC), especialmente nas patas (áreas interdigitais, axilas, virilhas). Ingestão por lamber superfícies ou comedouros/bebedouros mal enxaguados.
Recomendações Práticas para Tutores:
-Escolha de Produtos: Sugerir o uso de produtos de limpeza mais suaves e “pet-friendly”, sempre que possível.
-Limpeza e Enxágue: Orientar sobre a importância de enxaguar muito bem todas as superfícies e utensílios (comedouros, bebedouros) que entram em contato com os animais, garantindo a remoção completa de resíduos de detergentes.
-Tempo de Secagem: Recomendar que os animais não tenham acesso a superfícies úmidas ou recém-limpas até que estejam completamente secas.
3. Shampoos e Cosméticos para Pets
Problema: Muitos produtos para pets contêm substâncias que podem danificar a barreira cutânea, com regulamentação de segurança menos rigorosa.
Agentes Prejudiciais Comuns:
-Surfactantes (Lauril éter sulfato, SLS/SDS): Causam desestabilização da membrana celular e podem ser tóxicos.
-Preservativos e Perfumes: Também podem ser irritantes ou alergênicos.
Consequências em cães: Alteração do pH natural da pele (tornando-a mais alcalina), o que favorece a proliferação de microrganismos patogênicos (bactérias, Malassezia). Aumento da Perda de Água Transepidermal (TEWL), redução dos níveis de ceramidas e disfunção da filagrina, todos marcadores de disfunção da barreira cutânea e importantes na patogênese da DAC.
Recomendações Práticas para Tutores:
-Shampoos Adequados: Recomendar o uso de shampoos formulados especificamente para cães, com pH adequado (6-7 para cães saudáveis), e que sejam isentos de SLS/SDS ou outros surfactantes agressivos, bem como fragrâncias fortes e conservantes irritativos.
-Avaliação Clínica: Em casos de pele sensível ou atopia, sugerir produtos hipoalergênicos ou shampoos medicamentosos específicos conforme a condição.
-Banhos e Secagem: Instruir sobre a técnica correta de banho e secagem para evitar irritação e manter a integridade da pele.
4. Micro e Nanoplásticos
Problema: Onipresentes no ambiente, podem ser ingeridos por animais de diversas formas, incluindo brinquedos, comedouros e até mesmo ração. Foram encontrados em tecidos internos de cães e gatos. Coexistem com ftalatos, que podem agravar a inflamação.
Consequências em cães: Podem atravessar a barreira intestinal e se acumular em órgãos distantes (cérebro, fígado, rim). Podem induzir estresse oxidativo, respostas imunes do tipo Th2 e disbiose microbiana (diminuição de probióticos, aumento de bactérias patogênicas).
Recomendações Práticas para Tutores:
-Substituir Plástico: Aconselhar a troca de comedouros e bebedouros de plástico por opções de aço inoxidável ou cerâmica.
-Brinquedos: Orientar a escolha de brinquedos feitos de materiais mais seguros e naturais (borracha natural, corda, madeira atóxica), minimizando a exposição a microplásticos.
-Consciência Ambiental: Explicar a importância de reduzir o uso de plásticos no dia a dia, pois afeta o ecossistema compartilhado.
5. Poluição do Ar
Problema: A poluição do ar é um fator chave para doenças respiratórias e inflamatórias. Animais (especialmente os de menor porte, mais próximos do chão) estão altamente expostos, e gatos que vivem exclusivamente em ambientes internos têm exposição contínua à poluição interna.
Agentes Prejudiciais Comuns:
-Material Particulado (PM2.5, PM10): Prejudica a barreira epitelial das vias aéreas e da pele, causa estresse oxidativo e dano ao DNA.
-Gases (NO2, O3, COVs): Podem danificar a barreira epitelial, afetar a atividade ciliar e aumentar a permeabilidade. COVs (de tintas, carpetes, produtos de limpeza).
-Fumaça de Cigarro: Aumenta células inflamatórias nos pulmões, interrompe a função da barreira epitelial e suprime a resposta imune antiviral. Animais em lares de fumantes mostram cotinina, nicotina e outros contaminantes em seus fluidos corporais.
-Consequências em cães: Doenças respiratórias, agravamento de condições preexistentes e o desenvolvimento ou exacerbação da DAC (aumento de TEWL e inflamação).
Recomendações Práticas para Tutores:
-Qualidade do Ar Interno: Incentivar a boa ventilação dos ambientes, especialmente após o uso de produtos de limpeza ou durante reformas.
-Proibir Fumo Interno: Enfatizar veementemente que não se fume dentro de casa, pois a fumaça de segunda mão é diretamente prejudicial aos pets.
-Monitorar Poluição Externa: Para animais que passam muito tempo ao ar livre, sugerir evitar passeios em horários de pico de poluição ou em áreas de tráfego intenso.

Figura 2. Fatores que influenciam a integridade da barreira epitelial. Fonte: Ardicli et al., 2024.
6. Alérgenos
Problema: A disfunção da barreira epitelial permite que os alérgenos penetrem mais facilmente, iniciando a sensibilização.
Agentes Prejudiciais Comuns:
-Ácaros da Poeira Doméstica (Dermatophagoides spp.): Causa comum de doença alérgica perene. Podem contaminar rações secas, levando a diagnósticos incorretos de alergia alimentar.
-Pólen (árvores, gramíneas, ervas daninhas): Aumento da sensibilização em cães, similar aos humanos.
-Alergia à Picada de Pulga (DAPP): Muito comum e pode coexistir com a atopia.
-Fungos Patogênicos (Aspergillus spp., Alternaria spp.): Agravam doenças alérgicas e causam danos à barreira.
7. Impacto da Microbiota: A disbiose (desequilíbrio microbiano) pode intensificar a inflamação. O uso precoce de antibióticos está associado a um risco aumentado de alergias, incluindo DAC e alergias alimentares, por afetar a microbiota intestinal.
Consequências em cães: Sinais clínicos de atopia, prurido, otites recorrentes, piodermites, urticária.
Recomendações Práticas para Tutores:
-Controle de Ácaros: Orientar sobre limpeza e aspiração regulares, lavagem frequente de camas e tecidos que o pet usa, usando água quente para eliminar ácaros.
-Controle de Pulgas: Enfatizar um controle de pulgas rigoroso e contínuo para todos os animais da casa e o ambiente.
-Manejo do Pólen: Aconselhar a limpeza das patas e do pelo do animal após passeios ao ar livre, especialmente em épocas de maior concentração de pólen.
-Uso Prudente de Antibióticos: Explicar aos tutores sobre a importância de usar antibióticos apenas quando estritamente necessário, devido ao seu impacto na microbiota.
-Probióticos: Discutir com o tutor a possibilidade de suplementação com probióticos de qualidade para apoiar a saúde da microbiota intestinal e cutânea, especialmente em animais com histórico de alergias ou uso de antibióticos.
8. Fatores Genéticos e Raça
Problema: A seleção intensa em cães levou a uma redução da variabilidade genética e a uma maior suscetibilidade a doenças, incluindo doenças alérgicas de pele. Raças braquicefálicas, por exemplo, são predispostas a problemas de pele (dermatite de dobras) devido a características anatômicas e imunodeficiências.
Consequências em cães: Predisposição aumentada a DAC (Labrador Retriever, Pastor Alemão, West Highland White Terrier, Boxer, Rhodesian Ridgeback, Pug), alergias alimentares (Pastor Alemão, Labrador Retriever, West Highland White Terrier, Boxer, Rhodesian Ridgeback, Pug, Setter Irlandês, Soft Coated Wheaten Terrier, Terrier da Fronteira, Gato Siamês) e outras condições cutâneas (ictiose em Cavalier King Charles Spaniel, Buldogue Americano).
Recomendações Práticas para Tutores:
-Educação sobre Raças: Informar os tutores sobre as predisposições genéticas de suas raças e a importância de um manejo proativo e prevenção desde cedo para mitigar riscos.
-Monitoramento: Aconselhar o monitoramento regular para sinais precoces de doenças alérgicas em raças predispostas.
A Teoria da Barreira Epitelial oferece uma explicação abrangente para o aumento de doenças inflamatórias crônicas não transmissíveis, incluindo alergias, tanto em humanos quanto em animais de companhia. Diante da convivência íntima entre tutores e pets, é crucial adotar uma abordagem de “Saúde Única”, reconhecendo que os mesmos fatores ambientais que afetam a saúde humana impactam diretamente a saúde animal.
A falta de regulamentação e estudos aprofundados sobre a toxicidade de muitos produtos para pets é uma lacuna significativa. Como clínicos, temos um papel vital em educar os tutores para que se tornem consumidores mais críticos e informados, incentivando a escolha de produtos mais seguros e a redução da exposição a agentes ambientais que comprovadamente comprometem a integridade da barreira epitelial. Isso não só melhorará a saúde dos pets, mas também a de seus humanos, reforçando a interconexão da saúde global.
Baseado no artigo Epithelial barrier dysfunction and associated diseases in companion animals: Differences and similarities between humans and animals and research needs



