Transplante de Microbiota Fecal na Medicina Veterinária

O transplante de microbiota fecal (TMF) está ganhando destaque na medicina veterinária como uma estratégia eficaz para modular o microbioma intestinal e restaurar a eubiose em animais de companhia.
O TMF é a transferência de microrganismos fecais de um doador saudável para o trato gastrointestinal de um receptor doente. Historicamente, esta técnica remonta ao século IV na China, sendo reconhecida mais recentemente em 1958 como um tratamento para infecções por Clostridium difficile em humanos. Na medicina veterinária, tem sido investigada como uma alternativa ou terapia adjuvante para condições frequentemente associadas à disbiose, que é um desequilíbrio na composição microbiana intestinal. Esta abordagem é particularmente relevante diante do aumento da resistência antimicrobiana e da busca por estratégias de saúde integrativas.

Doenças com Eficácia Comprovada
Os estudos fornecem evidências sólidas da eficácia do TMF em diversas morbidades caninas:
* Enteropatias Crônicas (EC): Esta é a indicação mais comum para o TMF em cães.
◦ Um estudo retrospectivo com 41 cães com EC que não respondiam satisfatoriamente ao tratamento padrão demonstrou que 31/41 (76%) tiveram melhora nos sinais clínicos, resultando em uma redução significativa do Índice de Atividade da Doença Inflamatória Intestinal Canina (CIBDAI) de uma mediana de 6 para 2 (p < 0.0001). As melhorias mais notáveis foram na qualidade fecal e no nível de atividade.
◦ Outro estudo prospectivo com 20 cães com EC refratária à dieta relatou melhorias significativas no CIBDAI (mediana de 5 para 1, p < 0.0001) e no Índice de Disbiose (ID) em um mês. 17/20 cães melhoraram clinicamente em até 3 meses, e 10 cães permaneceram clinicamente estáveis por até um ano.
* Diarreia Aguda (DA): A terapia com TMF mostrou-se mais eficaz do que o metronidazol na resolução da DA em cães.
* Parvovirose Canina: O TMF demonstrou reduzir a mortalidade e acelerar a resolução da diarreia em filhotes com parvovirose.
* Diarreia Idiopática Persistente e Condições Cutâneas Insatisfatórias: Em um estudo piloto com 7 cães, 5/7 (71%) apresentaram melhora no índice de atividade clínica, com melhorias notáveis na qualidade fecal e na condição da pele e pelagem. O TMF também levou a uma tendência de aumento nos níveis séricos de cobalamina (vitamina B12), que frequentemente estão baixos em cães com enteropatias.
* Condições Inflamatórias Crônicas: O TMF também demonstrou potencial no manejo da doença inflamatória intestinal (DII), enteropatia inflamatória crônica (EIC) e dermatite atópica.
Doenças que Requerem Mais Estudos e Potenciais Aplicações
Enquanto o TMF mostra resultados promissores em diversas áreas, outras condições necessitam de mais pesquisa para confirmar sua eficácia e desvendar os mecanismos exatos:
* Obesidade: Estudos preliminares em modelos murinos indicam que a modulação do microbioma intestinal pode induzir a perda de peso, e pesquisas estão em andamento para avaliar resultados semelhantes em cães.
* Distúrbios Comportamentais e Neurológicos: Sugere-se que o TMF pode ter benefícios terapêuticos em condições como epilepsia idiopática, disfunção cognitiva canina, agressão e ansiedade, devido ao papel crucial do microbioma intestinal na síntese de precursores de neurotransmissores e na modulação do eixo intestino-cérebro.
* Doenças Imunomediadas, Cardíacas e Pulmonares: São áreas de estudo promissoras para futuras aplicações do TMF.
* Padronização e Duração do Efeito: Ainda são necessários mais dados sobre a duração da melhora clínica, o número ideal de tratamentos sequenciais e como o microbioma e o metaboloma são afetados ao longo do tempo.
Como o TMF Pode Auxiliar Clínicos Veterinários
O TMF oferece uma ferramenta valiosa para clínicos veterinários no manejo de diversas morbidades caninas:
* Tratamento Adjuvante Eficaz: Constitui uma opção terapêutica valiosa para cães com EC que não respondem satisfatoriamente aos tratamentos convencionais.
* Redução da Dependência de Fármacos: O TMF possibilitou a redução das doses de corticosteroides de manutenção ou até a interrupção do uso de antibióticos em alguns cães. Isso é um aspecto crucial na luta contra a resistência antimicrobiana. Um cão com colite ulcerativa histiocítica recidivante, por exemplo, permaneceu livre de sinais clínicos por 24 meses após o TMF, sem necessidade de outros medicamentos.
* Melhora da Qualidade de Vida: A melhora na qualidade fecal e no aumento do nível de atividade resultam em um bem-estar significativamente maior para os cães, que se tornam mais interativos e ativos.
* Modulação Microbiana Pós-Antibióticos: O TMF demonstrou ser particularmente eficaz na promoção de uma modulação microbiana favorável em cães previamente tratados com antimicrobianos, ajudando a normalizar o Índice de Disbiose e a restaurar a abundância de bactérias benéficas como Peptoacetobacter hiranonis.
* Segurança e Aceitação: A técnica é geralmente fácil de realizar e bem aceita pelos cães. Os efeitos colaterais são tipicamente leves e autolimitados, como diarreia ou piora transitória da diarreia nas primeiras 48 horas.
Técnicas Utilizadas e Aspectos Metodológicos
Os protocolos de TMF nos estudos seguiram abordagens padronizadas, com atenção à seleção de doadores e ao método de administração:
* Seleção de Doadores:
◦ São utilizados cães clinicamente saudáveis, frequentemente de propriedade da equipe veterinária, com escore de condição corporal ideal.
◦ A triagem é rigorosa e inclui a exclusão de qualquer histórico de doenças gastrointestinais ou cutâneas, uso de medicamentos (especialmente antibióticos, AINEs ou imunossupressores), e testes negativos para parasitas, enteropatógenos bacterianos (como Salmonella, Campylobacter) e organismos resistentes a múltiplos fármacos (como ESBL e MRSA).
◦ Um dos doadores principais de um estudo apresentava alta abundância de bactérias produtoras de ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs) como Fusobacterium e Faecalibacterium, o que é considerado benéfico.
* Coleta e Preparação do Material Fecal:
◦ As amostras são coletadas por defecação espontânea.
◦ As fezes podem ser usadas frescas (coletadas no mesmo dia) ou frescas congeladas (armazenadas a -20°C ou -40°C por até 3 meses ou menos de 28 dias, antes do processamento).
◦ O material fecal é misturado com soro fisiológico estéril (0,9% NaCl) e, em alguns casos, glicerol, e em seguida é homogeneizado (por exemplo, em um liquidificador) e filtrado para remover partículas maiores.
* Administração:
◦ A via predominante é o enema retal, utilizando cateteres de PVC. No entanto, cápsulas orais liofilizadas estão emergindo como uma alternativa menos invasiva e mais sustentada.
◦ A dosagem geralmente varia entre 2,5 a 7 gramas de fezes por quilograma de peso corporal do receptor.
◦ Os receptores são submetidos a um jejum pré-procedimento (6-8 horas) e passeados para esvaziamento intestinal. Sedação leve (como acepromazina) pode ser utilizada.
◦ Após a administração, a pelve do paciente pode ser elevada por cerca de 10 minutos para facilitar a difusão, e o animal é mantido em repouso por 30 minutos a 2 horas para garantir a retenção.
* Frequência: O esquema mais comum é de 3 TMFs com intervalos de 10 a 20 dias, embora o número de aplicações possa variar de 1 a 5, ou até mais em casos de recidiva.
Racional por Trás da Eficácia da Técnica
A eficácia do TMF baseia-se em sua capacidade de abordar diretamente a disbiose intestinal e suas consequências:
* Restauração do Equilíbrio Microbiano: O principal objetivo é transferir uma comunidade microbiana complexa e funcional de um doador saudável para um receptor, restabelecendo a diversidade e a composição de um microbioma benéfico. Acredita-se que essa “engraftment” seja mais fácil em um ambiente intestinal menos “hostil” ou com disbiose mais branda.
* Produção de Metabolitos Essenciais: Os microrganismos transplantados são cruciais para a produção de metabolitos que sustentam a saúde do hospedeiro, como ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs) (propionato, butirato, acetato) e ácidos biliares secundários.
◦ Os AGCCs são vitais para a redução da inflamação, como fonte de energia para os colonócitos, na regulação da motilidade intestinal e na manutenção da integridade da barreira intestinal.
◦ A restauração de bactérias como Peptoacetobacter hiranonis, responsáveis pela conversão de ácidos biliares primários em secundários, é um benefício chave, especialmente após tratamentos com antibióticos. Os ácidos biliares secundários atuam como inibidores do crescimento de patógenos.
* Modulação do Eixo Intestino-Cérebro: A melhora na atividade e no comportamento dos cães, mesmo sem letargia prévia, sugere um impacto positivo na fadiga, dor crônica e uma modulação do eixo intestino-cérebro, influenciada pela síntese de neurotransmissores (como serotonina) pelos microrganismos intestinais.
* Exclusão Competitiva: Um microbioma saudável e diverso pode competir com patógenos por recursos e nichos, inibindo o crescimento de bactérias prejudiciais.
* Fatores Preditivos de Resposta: Cães mais jovens e aqueles com um Índice de Disbiose mais baixo (indicando uma disbiose menos severa) tendem a apresentar uma resposta mais favorável ao TMF.

O transplante fecal emerge como uma ferramenta terapêutica poderosa e promissora na medicina veterinária, com eficácia comprovada no manejo de enteropatias crônicas, diarreia aguda e parvovirose em cães. Oferece melhorias significativas na qualidade fecal, nível de atividade e permite a redução da dependência de medicamentos como corticosteroides e antibióticos, o que é um benefício crucial em tempos de crescente resistência antimicrobiana. Embora áreas como obesidade e distúrbios neurológicos ainda demandem mais pesquisas para uma aplicação clínica rotineira, o TMF já se mostra como uma estratégia segura e eficaz para modular o microbioma intestinal, melhorando substancialmente a saúde e a qualidade de vida dos pacientes. Para os clínicos veterinários, o TMF é uma modalidade a ser considerada como parte de uma abordagem multimodal para distúrbios gastrointestinais e outras morbidades.

Texto baseado em artigos: 1, 2, 3 e 4.

Fernando Bittencourt Luciano

Farmacêutico e doutor em Ciências dos Alimentos, com uma trajetória que une ciência, inovação e empreendedorismo. Atualmente, é professor no Programa de Pós Graduação em Ciência Animal PUCPR e sócio na Wesen Green. Sua pesquisa é voltada para o uso de compostos naturais com ação antimicrobiana e anti-inflamatória, buscando desenvolver soluções inovadoras e seguras para promover a saúde e o bem-estar de cães e gatos.

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