O Papel dos Probióticos na Saúde Intestinal de Cães e Gatos

Compreender o papel dos probióticos na saúde intestinal de cães e gatos é fundamental para otimizar as recomendações aos seus pacientes. A pesquisa atual destaca a importância de uma microbiota intestinal equilibrada para o bem-estar geral desses animais, e os probióticos surgem como uma ferramenta promissora para modular essa comunidade microbiana.

A microbiota gastrointestinal (TGI) de cães e gatos é uma comunidade microbiana complexa que desempenha funções vitais, incluindo defesa contra patógenos, fornecimento de nutrientes, digestão e absorção, manutenção da função de barreira, estímulo ao desenvolvimento intestinal e modulação do sistema imunológico. Metabolitos bacterianos, como os ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), são mediadores chave da interação hospedeiro-microbiota, contribuindo para a integridade da barreira epitelial, regulação metabólica e efeitos anti-inflamatórios.
Quando essa comunidade microbiana se desequilibra, condição conhecida como disbiose, pode levar a uma variedade de doenças e distúrbios, como diarreia, alergias, obesidade e sintomas de estresse. Em cães e gatos, a disbiose tem sido associada a condições como enteropatias crônicas, doenças inflamatórias intestinais (DII), diarreia aguda e dermatite atópica.

Probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem um benefício à saúde do hospedeiro. Em cães e gatos, os probióticos têm demonstrado efeitos positivos na promoção da saúde e na prevenção de doenças. Seus principais benefícios incluem:

-Melhora do equilíbrio da microbiota intestinal.
-Modulação da inflamação e aprimoramento da função imunológica.
-Aumento da função de barreira intestinal.
-Proteção contra infecções por enteropatógenos.
-Alívio de distúrbios gastrointestinais como diarreia e constipação.
-Apoio na gestão de condições alérgicas, como a dermatite atópica.
-Possível controle de níveis de lipídios e proteínas, e até mesmo regulação do colesterol em alguns casos.

Os mecanismos de ação dos probióticos são multifacetados e incluem:

-Competição com patógenos por nutrientes e locais de adesão no intestino.
-Produção de compostos antimicrobianos, como ácidos orgânicos e bacteriocinas.
-Aumento da produção de proteínas de mucina, que fortalecem a barreira intestinal.
-Produção de AGCCs (ou indução de outras bactérias a produzi-los via cross-feeding), que são importantes para a saúde intestinal e sistêmica.
-Modulação do sistema imunológico, incluindo a promoção de células T reguladoras (Tregs).
-Influência na produção de neurotransmissores e hormônios através do eixo intestino-cérebro, como serotonina, dopamina e norepinefrina, e a redução de hormônios do estresse como o cortisol.

A eficácia dos probióticos é frequentemente cepa-específica, o que significa que os benefícios de uma cepa não podem ser extrapolados para outra. Idealmente, os probióticos devem ser de origem intestinal do próprio hospedeiro devido à especificidade da espécie.
Em Cães Lactobacillus e Bifidobacterium são frequentemente estudados e presentes em fezes de cães saudáveis. Fusobacterium e Bacteroides também são abundantes e associados à saúde.

Cepas validadas/promissoras:

-Lactobacillus fermentum AD1 (de origem canina): Demonstrou sobrevivência em pH baixo e bile, aderência ao muco intestinal e aumento de lactobacilos e enterococos fecais em cães.
-Enterococcus faecium EE3 (de origem canina): Sobreviveu ao TGI, persistiu nas fezes e diminuiu estafilococos e bactérias tipo Pseudomonas, enquanto aumentava as bactérias do ácido lático (LAB). Também reduziu lipídios e proteínas totais e normalizou o colesterol.
-Bifidobacterium animalis ssp. lactis (isolados caninos): Mostraram resistência a pH baixo e sais biliares, e forte atividade de autoagregação in vitro. B. animalis B/12 aumentou ácidos orgânicos nas fezes e reduziu triglicerídeos/albumina.
-Lactobacillus rhamnosus GG (LGG): Reduziu indicadores imunológicos de dermatite atópica em cães geneticamente predispostos, com efeitos a longo prazo.
-Lactobacillus acidophilus DSM13241: Melhorou a consistência fecal, matéria seca e frequência de defecação em cães com sensibilidade alimentar inespecífica.
-VSL#3 (mistura de L. plantarum, L. delbrueckii subsp. bulgaricus, L. casei, L. acidophilus, Bifidobacterium breve, B. longum, Bifidobacterium infantis e Streptococcus salivarius subsp. thermophilus): Reduziu significativamente os escores clínicos e histológicos da DII, normalizou a disbiose e melhorou a função de barreira intestinal em cães.
-Misturas probióticas multi-cepas como SLAB51®: Melhoraram a remissão clínica, suprimiram a inflamação e aumentaram a função de barreira em cães com DII. Também aumentaram IgA fecal e IgG plasmática em cães saudáveis.

Em Gatos:

As bactérias do ácido lático produtoras de Bifidobacterium são amplamente detectadas em fezes de gatos saudáveis. A microbiota fecal de gatos saudáveis é dominada por Firmicutes, Proteobacteria, Bacteroidetes, Fusobacteria e Actinobacteria. Fusobacterium, Prevotella 9 e Bacteroides são considerados a microbiota intestinal central em gatos.

Cepas validadas/promissoras:

-Lactobacillus acidophilus DSM13241: Alterou o equilíbrio da microbiota intestinal, aumentando os lactobacilos e diminuindo Clostridia e Enterococcus faecalis.
-Enterococcus faecium SF68: Diminuiu a incidência de diarreia em gatos de um abrigo animal.
Bacillus licheniformis (em produtos fermentados): Aliviou a diarreia crônica, reduzindo C. perfringens.
-Mistura probiótica multi-cepas (SLAB51™): Melhorou sinais clínicos e aumentou Lactobacillus e Streptococcus em gatos com constipação crônica e megacólon idiopático.

Em geral, para cães e gatos, o sucesso da intervenção probiótica está frequentemente ligado a:

-Aumento da diversidade da microbiota intestinal (especialmente em casos de disbiose, como DAC).
-Aumento da abundância de bactérias benéficas como Lactobacillus e Bifidobacterium.
-Redução de bactérias patogênicas ou potencialmente prejudiciais como Clostridium perfringens, Escherichia coli, Staphylococcus e Pseudomonas.
-Aumento na produção de AGCCs (acetato, butirato, propionato), que são vitais para a saúde intestinal e metabólica.

Ao considerar a recomendação de probióticos para seus pacientes caninos e felinos, alguns pontos são cruciais:

Escolha da Cepa e Espécie: A eficácia é altamente cepa-específica e, idealmente, deve ser específica para o hospedeiro (canina para cães, felina para gatos). Embora muitos produtos comerciais para pets não sejam de origem específica da espécie, cepas bem pesquisadas de origem humana ou suína também podem ter efeitos benéficos. Peçam por essas informações aos fabricantes.

Dosagem e Duração: As doses e durações de tratamento variam amplamente nos estudos (por exemplo, 1 x 10^6 a 3 x 10^10 UFC/dia por 3 a 24 semanas em humanos). Mais estudos são necessários para estabelecer protocolos claros e efeitos dose-dependentes em animais, porém produtos que tenham mais de 1×10ˆ9 UFC/dia devem gerar efeitos melhores. Probióticos não geram benefícios do dia para a noite. Tenha paciência, pois os benefícios chegam em algumas semanas.

Qualidade do Produto: Certifique-se de que o produto probiótico contenha microrganismos viáveis na quantidade declarada até o final do prazo de validade. A viabilidade é essencial para a ação probiótica. Para garantir isso, o fabricante deve ter controle de qualidade de seus produtos. O MAPA não exige isso, pois eles são considerados suplementos (mal não faz, mas também talvez não faça bem caso não tenha a população certa).

Segurança: Probióticos são geralmente considerados seguros para populações saudáveis, mas o uso em pacientes imunocomprometidos, muito jovens ou muito idosos pode acarretar riscos de efeitos adversos (infecções, distúrbios metabólicos, reações alérgicas). Cepas comerciais devem ter qualificações de segurança como QPS (Qualified Presumption of Safety) ou GRAS (Generally Recognized As Safe).

Personalização: A resposta aos probióticos pode variar entre indivíduos devido à complexidade da expressão gênica e às diferenças na microbiota basal. Uma abordagem mais personalizada pode ser necessária para otimizar os resultados.

Dieta e Prébióticos: A dieta desempenha um papel crucial na composição da microbiota. Uma dieta rica em fibras (carboidratos não digeríveis) pode promover o crescimento de bactérias benéficas (como Bifidobacterium e Lactobacillus) e a produção de AGCCs, potencializando os efeitos dos probióticos. A combinação de probióticos com prebióticos (simbióticos) pode ser mais eficaz na modulação da microbiota e no alívio de distúrbios metabólicos. Não adianta muito fornecer um probiótico caro com uma dieta ruim e que promove a disbiose. É o mesmo que querer enxugar gelo.

Transplante de Microbiota Fecal (TMF): Para casos mais graves de disbiose, como infecções recorrentes por Clostridioides difficile ou certas condições ósseas e metabólicas em humanos, o TMF é uma opção terapêutica eficaz que reconstrói a microbiota intestinal. Embora promissor, o TMF não está isento de riscos, como desconforto gastrointestinal e potencial transmissão de patógenos. Pesquisas adicionais em modelos clínicos são necessárias, mas muitas práticas clínicas já se mostram bastante efetivas.

Em suma, os probióticos representam uma área de pesquisa crescente com grande potencial para a saúde de cães e gatos. Recomendar probióticos requer uma compreensão das cepas específicas, dos mecanismos de ação e das necessidades individuais do paciente para alcançar o sucesso clínico desejado.

Fernando Bittencourt Luciano

Farmacêutico e doutor em Ciências dos Alimentos, com uma trajetória que une ciência, inovação e empreendedorismo. Atualmente, é professor no Programa de Pós Graduação em Ciência Animal PUCPR e sócio na Wesen Green. Sua pesquisa é voltada para o uso de compostos naturais com ação antimicrobiana e anti-inflamatória, buscando desenvolver soluções inovadoras e seguras para promover a saúde e o bem-estar de cães e gatos.

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