Manejo da Piodermite Canina para Clínicos Veterinários

 

1. Importância do Uso Consciente de Antibióticos
A piodermite canina é uma das principais razões para a prescrição de antimicrobianos na prática de pequenos animais. É crucial reduzir o uso inadequado de antimicrobianos e limitar a disseminação da resistência antimicrobiana. A acessibilidade da pele oferece excelentes oportunidades para a gestão antimicrobiana responsável, otimizando os resultados do tratamento e reduzindo a pressão seletiva sobre patógenos e flora comensal.

2.Procedimentos para Suspeita de Piodermite
Adote rotineiramente uma abordagem de três etapas antes de prescrever antimicrobianos:

– Exame da pele: Examine a pele em sua totalidade, apare pelos longos se necessário, e determine a extensão e distribuição das lesões.

– Citologia: Deve ser realizada em todos os casos de suspeita de piodermite para confirmar a causa bacteriana. É uma ferramenta chave para a gestão antimicrobiana responsável. A citologia confirma o diagnóstico, diferencia de doenças não infecciosas, e auxilia na interpretação de resultados de cultura. As descobertas que apoiam a piodermite incluem cocos intracelulares (dentro de neutrófilos ou macrófagos), bactérias extracelulares com “nuclear streaking”, ou grande número de bactérias na ausência de células inflamatórias (síndrome de supercrescimento bacteriano – BOG).

– Exames diagnósticos adicionais: Investigue as causas primárias subjacentes e descarte diagnósticos diferenciais.

3. Principais Erros Diagnósticos e Como Evitá-los.

Muitas lesões cutâneas associadas à piodermite também ocorrem em doenças não infecciosas. Pústulas, por exemplo, podem ser vistas em pênfigo foliáceo, uma doença estéril imunomediada. Pápulas e eritemas são comuns na dermatite atópica. A dermatite piotraumática pode ser difícil de diferenciar clinicamente da foliculite/furunculose piotraumática profunda.

A citologia é essencial para confirmar a causa bacteriana antes de iniciar a terapia antibacteriana. Se as lesões persistirem após o tratamento da infecção, considere uma biópsia para avaliação histopatológica a fim de investigar outras doenças diferenciais. A citologia também é crucial para guiar a interpretação da cultura bacteriana ao identificar as morfologias predominantes.

4. Quando fazer Cultura Bacteriana e Teste de Susceptibilidade Antimicrobiana (BC/AST):

-Sempre fortemente recomendado quando a terapia sistêmica é planejada, sendo preferível às escolhas empíricas.
-Sempre fortemente recomendado quando há um risco aumentado de resistência a antimicrobianos comumente escolhidos empiricamente. Isso inclui casos com:
-Histórico de uso recente ou frequente de antimicrobianos.
-Isolamento prévio de Staphylococcus pseudintermedius (MRSP), S. aureus (MRSA) ou S. coagulans (MRSC) resistentes à meticilina.
-Alta prevalência regional de resistência à meticilina.
-Achados citológicos de bastonetes ou polimicrobianos.
-Falta de melhora das lesões após 5-7 dias de terapia sistêmica.
-Surgimento de novas lesões durante a terapia.
-Sempre fortemente recomendado para piodermite profunda devido à maior diversidade de patógenos.
-Não é necessário para piodermite de superfície (tratamento é sempre tópico).
-Não é necessário para piodermite superficial se tratada apenas com terapia tópica.
-Sempre deve ser pareado com a citologia para uma interpretação correta dos resultados laboratoriais.

5. Terapia Tópica e Quando Usar Antibióticos

-A terapia antimicrobiana tópica como tratamento antibacteriano único é a escolha de tratamento para todas as piodermites de superfície e superficiais.
-Alternativas, como peptídeos antimicrobianos, antimicrobianos de origem vegetal e que não causam problema à barreira da pele devem ser a primeira escolha e mostraram eficiência tão grande quanto à terapia antisséptica;
-Antissépticos são a segunda escolha (por exemplo, clorexidina a 2–4%) e devem ser priorizados sobre os antibióticos tópicos.
-Antibióticos tópicos (por exemplo, ácido fusídico, mupirocina) devem ser reservados para casos que não responderam aos antissépticos ou quando antissépticos são considerados inadequados.
-Antimicrobianos sistêmicos devem ser reservados para piodermite profunda ou para casos de piodermite superficial onde a terapia tópica falhou ou não é viável devido a limitações do paciente ou tutor. A terapia tópica pode e deve ser utilizada como terapia adjuvante nesses casos. Ela irá acelerar o processo de cura.
-A terapia sistêmica deve ser sempre evitada em casos de piodermite de superfície.

6. Quais os Antibióticos de Primeira Escolha e Quais Devem Ser Deixados para Segunda ou Terceira Escolha?

Os antimicrobianos são classificados em grupos por prioridade de seleção: primeira escolha, segunda escolha e reservados, além dos fortemente desaconselhados.

-Primeira Escolha: Espera-se boa eficácia contra a maioria dos Staphylococcus spp. sensíveis à meticilina e baixo risco de efeitos adversos. São eles:

▪ Amoxicilina-clavulanato.
▪ Cefalexina, Cefadroxil (cefalosporinas de primeira geração).
▪ Clindamicina.
▪ Lincomicina (pode ser usada como substituto da clindamicina, mas sem padrões de teste aprovados).

-Segunda Escolha: Devem ser considerados apenas com resultados de BC/AST e quando os agentes de primeira escolha não são apropriados, devido ao risco aumentado de seleção de patógenos multirresistentes ou risco de eventos adversos. Esta categoria agora inclui:

▪ Cefalosporinas de terceira geração (por exemplo, Cefovecina, Cefpodoxime). A cefovecina foi movida para este grupo e seu uso deve ser baseado em testes de susceptibilidade.
▪ Fluoroquinolonas (por exemplo, Enrofloxacina, Marbofloxacina, Orbifloxacina, Pradofloxacina, Levofloxacina). Devem ser usadas doses mais altas e há um risco de seleção de resistência.
▪ Tetraciclinas (por exemplo, Doxiciclina, Minociclina). A doxiciclina e minociclina foram movidas para este grupo devido a uma chance de resistência de ≤ 50% em escolhas empíricas.
▪ Sulfonamidas Potencializadas (por exemplo, Trimetoprima-sulfadiazina/sulfametoxazol, Ormetoprima-sulfadimetoxina). Foram movidas da primeira para a segunda escolha devido a preocupações com eventos adversos clínicos em cães.

-Antimicrobianos Reservados: Devem ser limitados ao tratamento de infecções causadas por estafilococos multirresistentes (principalmente MRSP), quando nenhuma outra opção de primeira ou segunda escolha é apropriada. Incluem Rifampicina, Amicacina, Gentamicina, Cloranfenicol. Seu uso requer avaliação cuidadosa de cinco critérios específicos.

-Antimicrobianos Fortemente Desaconselhados: Não são licenciados para uso em animais e são criticamente importantes na medicina humana, com o uso em animais proibido na União Europeia desde 2023. Incluem Linezolida e Vancomicina.

7. O que Mudou do Último Consenso (Piodermite é Sempre Secundária, Tempo de Tratamento com Antibiótico)?

-Piodermite é sempre secundária: O conceito de piodermite “idiopática” ou “primária” não é mais sustentável. A infecção sempre surge quando a barreira da pele é alterada por fatores predisponentes, e uma causa primária subjacente é sempre necessária para desencadear a doença cutânea bacteriana.

-Tempo de tratamento com antibiótico:
▪ Piodermite Superficial: A duração do tratamento sistêmico foi revisada. Uma duração inicial de 2 semanas é recomendada, com reexame antes do final do curso para determinar se o tratamento pode ser interrompido ou precisa ser estendido. A duração historicamente defendida de 3-4 semanas não é mais justificada. A melhora deve ser observada dentro de 5-7 dias.
▪ Piodermite Profunda: Uma duração inicial de 3 semanas é recomendada para a terapia sistêmica. Tradicionalmente, recomendavam-se 4 a 12 semanas. O reexame deve ser agendado a cada 2 semanas se os sinais clínicos estiverem melhorando, mas não resolvidos, e a evidência citológica de infecção persistir. É muito raro que mais de 6 semanas de terapia antimicrobiana apropriada sejam necessárias para eliminar o componente secundário da piodermite.

8. Terapias Alternativas e Adjuvantes

Terapia com Peptídeos Antimicrobianos, Extratos Vegetais e Anti-inflamatória: Terapia combinada de antimicrobianos tópicos de origem biotecnológica e extratos nanoencapsulados apresentam eficiência para tratar e manter os animais por mais tempo longe das crises. A restauração da barreira é super importante para manter um microbioma saudável na pele e inibir o super crescimento de patógenos oportunistas. Ciclosporina, oclacitinib e lokivetmab podem melhorar o controle da doença alérgica e prevenir proativamente infecções bacterianas secundárias.

-Biomodulação por Fluorescência: Demonstrou encurtar o tempo de resolução da lesão em cães com piodermite profunda e furunculose interdigital, e também foi relatada a resolução de piodermite multirresistente em alguns cães.

-Opções Futuras: Terapia com bacteriófagos, probióticos cutâneos e abordagens de interferência bacteriana podem se tornar disponíveis no futuro, mas ainda não há estudos clínicos em cães publicados e produtos comercialmente disponíveis com validação clínica.

Fernando Bittencourt Luciano

Farmacêutico e doutor em Ciências dos Alimentos, com uma trajetória que une ciência, inovação e empreendedorismo. Atualmente, é professor no Programa de Pós Graduação em Ciência Animal PUCPR e sócio na Wesen Green. Sua pesquisa é voltada para o uso de compostos naturais com ação antimicrobiana e anti-inflamatória, buscando desenvolver soluções inovadoras e seguras para promover a saúde e o bem-estar de cães e gatos.

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