Estudo de artigo: Aplicação Tópica Diária de Gluconato de Clorexidina na Pele de Cães e seu Impacto na Barreira da Pele e Citotoxicidade

O artigo “Daily topical application of chlorhexidine gluconate to the skin in dogs and its impact on skin barriers and cytotoxicity” investigou o impacto da aplicação tópica diária de diferentes concentrações de gluconato de clorexidina (CHG) na barreira cutânea e na microbiota da pele de cães, um tópico de grande relevância no Brasil, onde o uso de xampus de clorexidina é frequente, muitas vezes por longos períodos, em animais com a barreira cutânea comprometida por condições como a dermatite atópica canina. Também é muito frequente a manipulação de sprays de clorexidina para uso em diversos tipos de infecção. Contudo, a clorexidina é sabidamente um agente pró-inflamatório e precisamos ter muito cuidado com a dose utilizada, principalmente em animais alérgicos que possuem a barreira da pele comprometida.
Este estudo buscou preencher uma lacuna de conhecimento sobre os efeitos do uso diário de CHG tópico, especialmente sem enxágue.

Delineamento Experimental:

O estudo foi conduzido em seis cães da raça Beagle saudáveis. Quatro seções de pele (3 cm² cada) no tórax dorsal de cada cão foram raspadas e designadas aleatoriamente para receber aplicações diárias de 0,05%, 0,5% ou 4% de CHG diluído em água estéril, ou apenas água estéril como controle negativo. As aplicações foram realizadas diariamente por duas semanas.
Os parâmetros avaliados antes da aplicação inicial e 24 horas após a aplicação final incluíram:
– Perda de Água Transepidérmica (TEWL): Um indicador da integridade da barreira cutânea.
– Hidratação da Superfície da Pele (SSH): Outro indicador da saúde da barreira.
– Contagem de Bactérias da Pele: Para avaliar a eficácia antimicrobiana.

Escores Clínicos de Erupção Cutânea: Avaliando eritema, pápulas e escamas.
Adicionalmente, foi realizado um ensaio de citotoxicidade in vitro utilizando queratinócitos epidérmicos progenitores caninos (CPEK) para investigar os efeitos da CHG na viabilidade celular em diversas concentrações (0,00005% a 0,5%).
Os resultados mostraram que as concentrações de CHG tiveram efeitos distintos na barreira cutânea e na atividade antimicrobiana:

  • Clorexidina a 4%:
    Efeito Antimicrobiano: Demonstrou uma redução significativa no número de bactérias da pele.
    Impacto na Barreira Cutânea: Levou a um aumento notável na TEWL e uma diminuição significativa na SSH. Isso sugere um potencial comprometimento da barreira cutânea.
    Sinais Clínicos: Observou-se uma tendência ao aumento de eritema e pápulas nas áreas aplicadas, com todos os cães exibindo escores clínicos de 2 ou superior (indicando moderado) apenas após a aplicação de CHG a 4%.
    Recomendação para Clínicos: A aplicação tópica diária de CHG a 4% não é recomendada, pois pode prejudicar a barreira da pele. Embora xampus com 4% CHG usados duas vezes por semana tenham mostrado efeitos terapêuticos sem piora dos sintomas clínicos em estudos anteriores, os efeitos da aplicação tópica diária e sem enxágue não eram claros e este estudo sugere o comprometimento da barreira. O uso desses xampus com grande frequência na pele comprometida também deve ser evitada, principalmente nessa dose.
  • Clorexidina a 0,5%:
    Efeito Antimicrobiano: Demonstrou atividade antimicrobiana suficiente, com uma redução significativa de bactérias na pele.
    Impacto na Barreira Cutânea: Não causou alterações significativas na TEWL ou SSH.
    Sinais Clínicos: Não houve piora nas pontuações clínicas de erupção cutânea (eritema, escamas, pápulas).
    Recomendação para Clínicos: A concentração de 0,5% de CHG pode ser recomendada para aplicação tópica diária na pele canina saudável por ser eficaz contra micróbios sem prejudicar a barreira cutânea de animais com a pele íntegra.
  • Clorexidina a 0,05%:
    Efeito Antimicrobiano: Embora tenha mostrado uma tendência decrescente no número de bactérias na pele, essa redução não foi estatisticamente significativa. A eficácia residual pode ser limitada.
    Impacto na Barreira Cutânea: Não alterou significativamente a TEWL ou SSH.
    Sinais Clínicos: Não alterou os escores clínicos de erupção cutânea.

Testes in vitro de citotoxicidade in vitro revelaram que a CHG reduziu significativamente a viabilidade de queratinócitos caninos (CPEK) em concentrações de 0,05% e 0,5%. Concentrações mais baixas, como 0,005%, tiveram citotoxicidade menos pronunciada.
Essa discrepância entre os resultados in vitro (onde a citotoxicidade é observada em concentrações mais baixas) e in vivo (onde 0,5% não causou danos à barreira em cães saudáveis) é atribuída à função de barreira do estrato córneo.
No entanto, em situações onde o estrato córneo está comprometido (como em casos de erosão ou lesões, comum em dermatites atópicas), os queratinócitos podem ser diretamente expostos ao desinfetante. Nestes casos, a citotoxicidade da CHG pode ocorrer em um curto período.
Recomendação para Clínicos: Em cães com estrato córneo comprometido ou lesões (erosões), é aconselhável usar CHG em concentrações mais baixas, como 0,005% ou menos. É importante notar que concentrações abaixo de 0,05% podem não ser suficientemente antibacterianas.
Importante: Este estudo foi realizado em cães saudáveis. Cães com condições como dermatite atópica, que já envolvem anormalidades na barreira cutânea, podem potencialmente exibir manifestações mais graves de erupção cutânea e comprometimento da função da barreira.
Considerando a preocupação com o uso prolongado e a barreira comprometida em pacientes atópicos, o estudo sugere que para cães com suspeita de função de barreira cutânea comprometida, o uso de concentrações mais baixas de CHG deve ser considerado. Repositores de barreira devem sempre acompanhar esse tipo de tratamento para evitar ou reduzir o dano na pele após o uso desse tipo de produto.
Além disso, o estudo não avaliou os efeitos de enxágue ou limpeza da CHG após a aplicação. É possível que o enxágue minimize os efeitos na barreira da pele, especialmente em concentrações mais altas.
É crucial evitar a aplicação de CHG na ausência de supercrescimento bacteriano devido aos potenciais riscos de efeitos adversos e impacto na microbiota residente.

Leia o artigo na íntegra clicando aqui.

Fernando Bittencourt Luciano

Farmacêutico e doutor em Ciências dos Alimentos, com uma trajetória que une ciência, inovação e empreendedorismo. Atualmente, é professor no Programa de Pós Graduação em Ciência Animal PUCPR e sócio na Wesen Green. Sua pesquisa é voltada para o uso de compostos naturais com ação antimicrobiana e anti-inflamatória, buscando desenvolver soluções inovadoras e seguras para promover a saúde e o bem-estar de cães e gatos.

Wesen
Green

Usamos o poder da natureza para combater as enfermidades de maneira segura, eficaz e que promova bem estar e longevidade para um dos principais membros da família: nosso pet!

Leia também