O estudo de Cao et al. (2024) investigou as relações causais bidirecionais entre a dermatite atópica (DA) e transtornos psiquiátricos em humanos, utilizando um método de randomização mendeliana (RM) de duas amostras. Os resultados indicaram que a DA está associada a um risco aumentado de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno do Espectro Autista (TEA). Além disso, o estudo revelou que a Anorexia Nervosa (AN) e o Transtorno Bipolar (TB) podem ser fatores de risco para a DA. A análise de sensibilidade confirmou a robustez dessas associações, sem evidência de pleiotropia horizontal ou heterogeneidade significativas.
Embora o estudo se concentre em humanos, é possível traçar paralelos com a dermatite atópica canina (DAC) e problemas comportamentais. A DAC é uma doença inflamatória crônica da pele em cães, caracterizada por prurido intenso e lesões eczematosas. Assim como em humanos, o prurido crônico e o desconforto físico associados à DAC podem levar a estresse psicológico e alterações comportamentais, como ansiedade, lambedura excessiva, automutilação, e diminuição da qualidade de vida.
A relação bidirecional observada em humanos entre DA e TDAH sugere que mecanismos fisiológicos compartilhados, como inflamação e desregulação do sistema imunológico, podem contribuir para o desenvolvimento simultâneo de problemas de pele e comportamentais. Em cães, a inflamação sistêmica e o estresse crônico decorrentes da DAC podem impactar o sistema nervoso central, resultando em comportamentos ansiosos ou compulsivos. A pesquisa em DAC também explora a influência da dieta na imunidade e na redução do estresse oxidativo, o que pode fornecer insights sobre a relação entre fatores nutricionais e a saúde da pele e o comportamento em cães.
Para melhorar os aspectos clínicos em animais, os veterinários podem adotar uma abordagem holística no manejo da DAC. Além do tratamento dermatológico específico (anti-inflamatórios, imunomoduladores), é crucial abordar o bem-estar psicológico do cão. Isso inclui:
- Controle eficaz do prurido: Minimizando o desconforto, pode-se reduzir o estresse e comportamentos indesejados.
- Manejo do estresse: Identificar e mitigar fatores estressores no ambiente do cão.
- Enriquecimento ambiental: Fornecer estímulos mentais e físicos adequados.
- Suporte comportamental: Em casos de ansiedade severa ou comportamentos compulsivos, encaminhamento a um veterinário especializado em comportamento ou o uso de terapias comportamentais e, se necessário, medicamentos e fitoterápicos ansiolíticos.
- Avaliação nutricional: Explorar dietas que possam otimizar a saúde da pele e apoiar a função imunológica, semelhante às descobertas sobre dieta e DAC em cães.
Compreender a complexa interação entre a saúde dermatológica e o comportamento é fundamental para um manejo clínico mais abrangente e eficaz da DAC.

Fernando Bittencourt Luciano
Farmacêutico e doutor em Ciências dos Alimentos, com uma trajetória que une ciência, inovação e empreendedorismo. Atualmente, é professor no Programa de Pós Graduação em Ciência Animal PUCPR e sócio na Wesen Green. Sua pesquisa é voltada para o uso de compostos naturais com ação antimicrobiana e anti-inflamatória, buscando desenvolver soluções inovadoras e seguras para promover a saúde e o bem-estar de cães e gatos.



