Dermatite Atópica Canina e o Uso de Ilunocitinib: Resultados de um Ensaio Clínico Controlado

A dermatite atópica canina (DAC) é uma doença cutânea inflamatória crônica caracterizada principalmente por prurido (coceira). Essa coceira pode levar a lesões secundárias, como escoriações, alopecia (queda de pelos autoinfligida) e espessamento da pele (liquenificação). Infecções bacterianas ou fúngicas secundárias também são complicações comuns. A DAC envolve uma interação complexa de fatores genéticos e ambientais, juntamente com uma barreira cutânea defeituosa.

Controlar o prurido e as lesões cutâneas é essencial para permitir a cicatrização da pele, prevenir alterações crônicas e evitar infecções secundárias. Muitas citocinas, secretadas por células do sistema imunológico, mediam o prurido e a inflamação observados na DAC. Essas citocinas frequentemente sinalizam por meio da via Janus quinase–transdutor de sinal e ativador de transcrição (JAK–STAT). Os inibidores da Janus quinase (JAKi) são uma classe de medicamentos que inibem principalmente JAK1, mas também podem inibir JAK2, JAK3 e/ou tirosina quinase 2 (TYK2), sendo usados em humanos para condições inflamatórias crônicas. O oclacitinib é um JAKi veterinário eficaz para DAC, mas alguns cães podem não responder completamente, indicando a necessidade de opções terapêuticas adicionais.

O ilunocitinib é descrito como um novo JAKi veterinário com alta potência in vitro para inibir JAK1, JAK2 e TYK2. Estudos exploratórios anteriores sugeriram sua capacidade de controlar o prurido e reduzir lesões cutâneas. Este ensaio clínico teve como objetivo avaliar a segurança e a eficácia do ilunocitinib oral, administrado uma vez ao dia, em cães com DAC de tutores. O estudo foi multicêntrico, duplo-cego, randomizado e controlado por placebo, realizado em 25 clínicas veterinárias nos EUA e Canadá. Um total de 268 cães foi incluído e recebeu ilunocitinib (n=181) ou placebo (n=87) uma vez ao dia por até 112 dias. Os cães foram diagnosticados com DAC com base no histórico, sinais clínicos, exclusão de outras condições pruriginosas e atendimento a pelo menos seis dos oito critérios de Favrot. Os critérios de inclusão incluíram cães com mais de 12 meses, peso mínimo de 3 kg, fisicamente saudáveis, com prurido moderado a grave (Escala Visual Analógica de Prurido [PVAS] ≥ 6,0) e lesões cutâneas avaliadas pelo investigador (Índice de Extensão e Gravidade da Dermatite Atópica Canina, 4ª edição [CADESI-04] ≥ 25). A dose de ilunocitinib foi de 0,6–0,8 mg/kg uma vez ao dia.

Principais Resultados de Eficácia
* Redução Rápida do Prurido: O ilunocitinib levou a uma queda rápida e significativa nos escores médios de PVAS, observada já no Dia 2, com redução contínua até o Dia 112 em comparação com o placebo. Uma redução clinicamente relevante (≥50% de diminuição no PVAS) foi observada em 29% dos cães tratados com ilunocitinib já no Dia 3. Essa proporção foi significativamente maior em comparação com o grupo placebo do Dia 3 até o Dia 84.

* Melhora Significativa das Lesões Cutâneas: Os escores médios de CADESI-04 foram significativamente menores no grupo ilunocitinib a partir do Dia 14. Os escores médios passaram de moderados (57) no início para leves (27) no Dia 14, enquanto os escores do placebo permaneceram moderados durante todo o estudo. Uma proporção significativamente maior de cães tratados com ilunocitinib atingiu redução ≥50% no CADESI-04 em todos os pontos.

* Alta Taxa de Sucesso do Tratamento: No Dia 28, 82,9% dos cães no grupo ilunocitinib atingiram sucesso no tratamento (≥50% de redução nos escores de PVAS ou CADESI-04), comparado a 30,9% no grupo placebo.

* Remissão Clínica: Uma proporção significativamente maior de cães tratados com ilunocitinib atingiu escores normais de PVAS (<2) a partir do Dia 7, mantidos até o Dia 112. Escores normais de CADESI-04 (<10) também foram mais frequentes no grupo tratado a partir do Dia 14. No Dia 112, 67% dos cães tratados estavam em remissão clínica para prurido e lesões cutâneas, contra 20%–30% no grupo placebo.

* Avaliação de Tutores e Veterinários: Tanto os escores de resposta geral ao tratamento avaliados pelos tutores (ORTT-VAS) quanto pelos veterinários (IRTT-VAS) foram significativamente maiores no grupo ilunocitinib em todos os pontos avaliados.

* Menor Taxa de Abandono por Falta de Eficácia: Apenas 5,5% dos cães tratados com ilunocitinib saíram do estudo por falta de eficácia até o Dia 28, contra 44% no grupo placebo.

Principais Resultados de Segurança
* Boa Tolerabilidade Geral: O tratamento diário por 112 dias foi bem tolerado. A porcentagem de cães com um ou mais eventos adversos (EAs) foi similar entre os grupos até o Dia 28 (58,0% ilunocitinib vs. 66,7% placebo) e seguiu estável até o Dia 112 (82,3% vs. 79,3%).

* Eventos Adversos Comuns: Os EAs mais comuns foram distúrbios cutâneos e de anexos, do trato digestivo, sistêmicos e do ouvido. Como esperado, distúrbios otológicos e de pele foram frequentes, mas menos relatados no grupo ilunocitinib, presumivelmente devido ao melhor controle da DAC. A maioria dos EAs considerados “provavelmente” relacionados ao tratamento foi infrequente, não séria e se resolveu espontaneamente.

* Exames Laboratoriais: A maioria dos valores hematológicos e bioquímicos permaneceu dentro da faixa fisiológica. No Dia 28, observou-se leve queda em leucócitos totais, principalmente neutrófilos, eosinófilos e monócitos, e aumento relativo de linfócitos. No Dia 112, houve leve aumento no volume corpuscular médio (MCV) e leves aumentos em ureia, cloro, creatinina, potássio e colesterol, com leves quedas em globulinas e proteínas totais. Triglicerídeos ficaram levemente acima da faixa no grupo ilunocitinib nos Dias 56 e 84, e no grupo placebo no Dia 112. Aumentos leves em albumina foram observados nos Dias 56, 84 e 112. Essas alterações são compatíveis com outros JAKi, como oclacitinib, e consideradas clinicamente irrelevantes.

* Peso Corporal: O peso médio aumentou +4,9% no grupo ilunocitinib até o Dia 112, enquanto o grupo placebo teve -1,5% de variação, possivelmente relacionado à melhora clínica.

* Eventos Adversos Graves (EAGs – Serious Adverse Events): Ocorreram em cinco cães (três tratados com ilunocitinib e dois com placebo). Nenhum dos eventos relatados foi considerado relacionado ao tratamento. Um cão tratado com ilunocitinib apresentou tendinite (decorrente de trauma), outro teve um hemangiossarcoma abdominal rompido (identificado após sua saída do estudo), e um terceiro apresentou neutropenia moderada associada a uma infecção urinária subclínica preexistente e, posteriormente, à neutropenia cíclica. Os dois EAGs no grupo placebo envolveram os sistemas digestivo e circulatório.

* Medicações Concomitantes: A maioria dos cães de ambos os grupos recebeu medicamentos ou terapias concomitantes (ectoparasiticidas, preparações tópicas e vacinas), sugerindo que o ilunocitinib pode ser usado com outras terapias comuns, embora antimicrobianos sistêmicos e otológicos tópicos tenham sido restritos nas primeiras 4 semanas.

Limitações do Estudo
Uma limitação importante foi o desequilíbrio na amostragem entre os grupos até o final do estudo (aproximadamente 5:1 ilunocitinib:placebo, ao invés de 2:1), devido à alta taxa de desistência no grupo placebo por agravamento dos sintomas. Isso pode ter reduzido o poder estatístico para comparação no Dia 112 e impactado a análise de segurança ao longo de todo o estudo. Embora o desfecho primário no Dia 28 tenha sido estatisticamente significativo (p < 0,001), os desfechos secundários não foram ajustados para múltiplas comparações, o que aumenta o risco de erro tipo I; a interpretação desses dados deve considerar esse fator.

Conclusões Práticas para Clínicos Veterinários
* O ilunocitinib, administrado uma vez ao dia, é eficaz no controle do prurido e das lesões da DAC.
* Proporciona alívio rápido da coceira, frequentemente em poucos dias.
* A melhora das lesões cutâneas ocorre de forma significativa já em 2 semanas.
* A remissão clínica (mínimos ou nenhum sinal) pode ser alcançada em até dois terços dos cães após 4 meses de tratamento.
* A dose única diária mostrou-se eficaz e não resultou no efeito rebote observado em transições de oclacitinib de duas para uma dose diária.
* Foi geralmente bem tolerado durante os 112 dias.
* Eventos adversos comuns foram menos frequentes no grupo ilunocitinib, possivelmente refletindo melhor controle da doença.

Pontos de Atenção
* Houve alterações hematológicas e bioquímicas leves, compatíveis com o uso de JAKi, mas dentro das faixas fisiológicas.
* Foram observados aumentos leves em triglicerídeos e colesterol, sem relevância clínica significativa.
* Ocorreram eventos adversos graves (EAGs) em pequena proporção, sem relação com o tratamento, mas a neutropenia observada em um cão justifica atenção clínica e monitoramento de rotina.
* O desequilíbrio na amostra final compromete parcialmente a análise de segurança.
* São necessários estudos comparativos diretos entre ilunocitinib e outros tratamentos, como oclacitinib, para uma avaliação mais robusta de eficácia e segurança.

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Fernando Bittencourt Luciano

Farmacêutico e doutor em Ciências dos Alimentos, com uma trajetória que une ciência, inovação e empreendedorismo. Atualmente, é professor no Programa de Pós Graduação em Ciência Animal PUCPR e sócio na Wesen Green. Sua pesquisa é voltada para o uso de compostos naturais com ação antimicrobiana e anti-inflamatória, buscando desenvolver soluções inovadoras e seguras para promover a saúde e o bem-estar de cães e gatos.

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