A dermatite seborreica é uma inflamação crônica da pele, que afeta principalmente áreas com muitas glândulas sebáceas. A causa exata ainda não é totalmente conhecida. No entanto, uma das principais hipóteses aponta para uma relação com o fungo do gênero Malassezia. Esse fungo é comum na pele humana e se alimenta de lipídios presentes no sebo. Porém, novas evidências mostram que o problema pode estar menos ligado ao fungo em si, e mais à forma como o sistema imunológico reage a ele. Além disso, alterações na barreira da pele também parecem ter um papel importante.
O fungo Malassezia vive normalmente na pele, mas em situações de desequilíbrio, como imunossupressão, pode se multiplicar de forma excessiva. Espécies como Malassezia globosa e Malassezia restricta são mais comuns em pessoas com dermatite seborreica.
As glândulas sebáceas produzem um filme de gordura na pele. Esse filme contém substâncias que servem de alimento para o fungo. Quando esse sebo é quebrado por enzimas do próprio fungo, surgem ácidos graxos livres, como o ácido oleico. Esses ácidos podem causar irritação e inflamação. Se a barreira da pele estiver comprometida, esses irritantes penetram mais facilmente, agravando a inflamação. Por isso, fortalecer a barreira cutânea é um passo importante no tratamento.
O sistema imunológico tem um papel central. A dermatite seborreica costuma acontecer quando o corpo reage de forma exagerada ao fungo. Isso é ainda mais evidente em pessoas com o sistema imune enfraquecido, como pacientes com HIV. A inflamação envolve tanto a imunidade inata quanto a adaptativa. Células do sistema imune, como as células T gama delta e os mastócitos, são ativadas. Também há participação do inflamassoma NLRP3, que leva à produção de uma substância inflamatória chamada interleucina 1 beta. Na imunidade adaptativa, as células T auxiliares dos tipos Th1, Th2 e Th17 também entram em ação. Elas liberam citocinas inflamatórias, como IL-4, IL-17, IL-2 e interferon gama. Tudo isso agrava a inflamação e danifica ainda mais a pele.
Com base nisso, o tratamento da dermatite seborreica envolve três pontos principais: controlar o crescimento do fungo, reduzir a inflamação e restaurar a barreira cutânea. Os antifúngicos são fundamentais. Eles podem ser aplicados de forma tópica, como o cetoconazol, ou em casos mais graves, usados por via oral. Esses medicamentos ajudam a controlar o número de fungos e também têm efeito anti-inflamatório. Os anti-inflamatórios, como os corticoides tópicos, ajudam a aliviar o eritema e a coceira. Em casos mais resistentes, medicamentos imunomoduladores, como o tacrolimus e o pimecrolimus, também podem ser usados.Outras estratégias incluem o uso de probióticos tópicos e produtos que reforçam a barreira da pele, como ceramidas ou ácidos graxos essenciais.
Por fim, é importante lembrar que a dermatite seborreica é uma condição crônica. O tratamento costuma exigir manutenção e acompanhamento a longo prazo. No contexto veterinário, esses mesmos princípios são válidos. O fungo Malassezia também está presente na pele dos animais, e a inflamação causada por ele depende mais da resposta imune do que da quantidade de fungo presente. Por isso, é essencial tratar o animal de forma completa, controlando o fungo, reduzindo a inflamação e fortalecendo a pele.
Pontos-chave para Clínicos Veterinários
Embora o foco da revisão seja a DS humana, os princípios sobre Malassezia, barreira cutânea, sebo e resposta imune do hospedeiro são altamente relevantes para entender e manejar a dermatite por Malassezia em animais.
Mais do que contar fungos: Malassezia é comensal comum. A doença clínica está mais relacionada à resposta do hospedeiro do que à presença do fungo. Investigue causas subjacentes de disfunção imune ou barreira antes de iniciar tratamento antifúngico agressivo.
O sebo é combustível, Ácidos Graxos Livres são irritantes: Malassezia prospera em lipídios. A quebra do sebo em AGLs irritantes (como ácido oleico) pode desencadear inflamação. Considere shampoos terapêuticos que removam ou neutralizem esses ácidos graxos.
A barreira é fundamental: A disfunção da barreira cutânea pode ser mais crítica do que alterações do microbioma. Apoie sua função com ceramidas tópicas, elementos funcionalmente análogos às ceramidas, suplementos de ácidos graxos e banhos apropriados.
A inflamação é central: A inflamação mediada por imunidade inata e adaptativa é o principal problema. Justifica o uso comum de anti-inflamatórios (corticoides, inibidores da calcineurina, anti-inflmatórios fitoterápicos) junto com antifúngicos.
Desregulação imune importa: A ligação entre imunocomprometimento e DS grave destaca a importância da imunidade sistêmica. Considere sempre doenças sistêmicas subjacentes em casos de dermatite recorrente ou severa.
Abordagem multimodal: A combinação de antifúngicos, anti-inflamatórios e terapias de suporte à barreira reflete a prática veterinária moderna.
Natureza crônica e recorrente: A DS é uma condição crônica. Oriente tutores sobre a necessidade de manejo contínuo e tratamento de manutenção.
Leia os artigos base na íntegra: 1 e 2.

Fernando Bittencourt Luciano
Farmacêutico e doutor em Ciências dos Alimentos, com uma trajetória que une ciência, inovação e empreendedorismo. Atualmente, é professor no Programa de Pós Graduação em Ciência Animal PUCPR e sócio na Wesen Green. Sua pesquisa é voltada para o uso de compostos naturais com ação antimicrobiana e anti-inflamatória, buscando desenvolver soluções inovadoras e seguras para promover a saúde e o bem-estar de cães e gatos.



